Tecnologias Quânticas e Pós-Quânticas para Investigação do Tráfico de Pessoas
Thays Felipe David de Oliveira, Carlos Eduardo Franco Azevedo, Fernando Manuel Araújo-Moreira
O tráfico internacional de pessoas constitui grave violação de direitos humanos. Segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 50 milhões de pessoas vivem em escravidão moderna, com movimentação anual em torno de US$ 236 bilhões, com vítimas de mais de 160 nacionalidades identificadas em 128 países de destino e 131 rotas internacionais conectadas ao Brasil. As redes criminosas transnacionais recorrem a criptografia avançada, plataformas digitais e criptomoedas, o que supera as capacidades investigativas convencionais. Os sistemas brasileiros de vigilância de fronteira (SIVAM, SIPAM e SISFRON), concebidos para vigilância aérea e detecção de desmatamento, mostram-se limitados para identificar deslocamentos terrestres ou fluviais de pessoas e para rastrear o aliciamento digital. A partir desse quadro, o capítulo examina as rotas, as redes transnacionais e as vulnerabilidades brasileiras e avalia o potencial das tecnologias quânticas e pós-quânticas no enfrentamento ao crime. São discutidas três tecnologias (computação quântica, criptografia pós-quântica e sensoriamento quântico) em quatro aplicações: a análise de redes criminosas por processamento de grandes volumes de dados; o rastreamento de fluxos financeiros entre múltiplas jurisdições; a proteção das comunicações entre agências por meio de criptografia resistente a ataques quânticos; e o monitoramento de fronteiras e rotas com sensores de alta precisão. Sua adoção esbarra em desafios técnicos, operacionais e regulatórios que exigem estratégias graduais, cooperação internacional e investimento continuado em capacitação. No caso brasileiro, mostram-se mais viáveis a migração prioritária para a criptografia pós-quântica nos sistemas de cooperação policial, a participação em projetos-piloto de computação quântica e o investimento seletivo em formação de pessoal. O estudo tem caráter exploratório e apoia-se sobretudo em literatura técnica, sem validação empírica; como agenda futura, aponta a avaliação de projetos-piloto, análises de custo-efetividade e o exame das implicações éticas do uso dessas tecnologias.
•Aug 4, 2026•0 citations