O desenvolvimento da teoria quântica, na primeira metade do século passado, acendeu um debate acalorado entre filósofos e físicos sobre a natureza das leis físicas e, em especial, sobre a validade do princípio de causalidade. Tendo em vista a teoria de Planck sobre a radiação, a interpretação probabilista de Max Born, as relações de incerteza de Heisenberg e o princípio de complementaridade de Bohr, muitos físicos colocaram em dúvida a causalidade clássica, cuja legitimidade parecia a princípio não mais estar assegurada no domínio quântico. O objetivo deste artigo é apresentar e discutir as diferentes posições em torno desse debate. Serão analisados, além dos argumentos levantados pelos intérpretes de Copenhague, aqueles sustentados por neopositivistas e neokantianos. Procuraremos mostrar que, a despeito dos antagonismos filosóficos, a posição adotada por Schlick nesse debate parece estar mais próxima de Cassirer do que de seu colaborador Reichenbach.
O desenvolvimento da teoria quântica, na primeira metade do século passado, acendeu um debate acalorado entre filósofos e físicos sobre a natureza das leis físicas e, em especial, sobre a validade do princípio de causalidade. Tendo em vista a teoria de Planck sobre a radiação, a interpretação probabilista de Max Born, as relações de incerteza de Heisenberg e o princípio de complementaridade de Bohr, muitos físicos colocaram em dúvida a causalidade clássica, cuja legitimidade parecia a princípio não mais estar assegurada no domínio quântico. O objetivo deste artigo é apresentar e discutir as diferentes posições em torno desse debate. Serão analisados, além dos argumentos levantados pelos intérpretes de Copenhague, aqueles sustentados por neopositivistas e neokantianos. Procuraremos mostrar que, a despeito dos antagonismos filosóficos, a posição adotada por Schlick nesse debate parece estar mais próxima de Cassirer do que de seu colaborador Reichenbach.
A idéia de determinismo, proposta para estender e generalizar a causalidade física pelo acréscimo em particular da consideração das condições iniciais, constituiu-se desde então na referência ideal de todo conhecimento científico e foi considerada como insuperável. Todavia, esse ideal ver-se-á superado em várias direções: pelas modificações subseqüentes à causalidade relativística; pelos sistemas dinâmicos "não-lineares" deterministas, cujo comportamento pode no final ser totalmente não-previsível; pelos problemas levantados pela física quântica ("redução" da função de estado e predições probabilistas). Os dois últimos casos tornam evidentes os limites das noções de causalidade e de determinismo, mostrando que o conhecimento atual pode superá-las em muito, além de sugerirem interrogações a respeito do sentido realmente físico das grandezas utilizadas na teoria. Quando consideramos as grandezas mais significativas do ponto de vista das características dos fenômenos físicos, a causalidade se apresenta diferente e o determinismo se mostra antropologicamente centrado e ineficiente. Deixam, desse modo, lugar à consideração dessa outra categoria mais significativa, a saber, a de necessidade, que independe de nossas escolhas conceituais e teóricas e tem, ao mesmo tempo, a capacidade de regulá-las.
vieram ao Brasil para trabalhar com Bohm, enquanto Léon Rosenfeld veio para estabelecer o contraponto entre a interpretação causal e a visão da complementaridade patrocinada pelo físico dinamarquês Niels Bohr.Ainda na década de 1960 foi a vez de Klaus Tausk, professor da USP, envolver-se em acirrada controvérsia com físicos italianos e com Rosenfeld sobre o problema da medição na Teoria Quântica.Pouco depois, o físico brasileiro José Leite Lopes, exilado em Estrasburgo, na França, junto com o físico francês Michel Paty, promoviam evento, que gerou o livro Quantum mechanics -a half century later, que contribuiu para criar um espaço favorável à pesquisa sobre os fundamentos da Teoria Quântica.Recentemente, os desenvolvimentos teóricos sobre o efeito descoerência e o experimento tipo "gato de Schrödinger", que testou pela primeira vez esse efeito, contam entre seus protagonistas com os físicos brasileiros Amir Caldeira e Luiz Davidovich.Os capítulos deste livro estão organizados em quatro partes.A primeira, intitulada História da teoria quântica -desenvolvimentos e fundamentos, reúne artigos com uma abordagem eminentemente histórica sobre aspectos da pesquisa em Teoria Quântica na segunda metade do século XX.A segunda parte, Implicações filosóficas da teoria quântica, está integrada por textos essencialmente filosóficos, versando sobre a interpretação da Teoria Quântica.As Implicações culturais e educacionais da teoria quântica, terceira parte, referem-se a fenômenos, como o "misticismo quântico," a presença da quântica no teatro e o ensino dessa teoria física.Por fim, a última parte, Construção da teoria quântica: história e tendências de pesquisa, está composta por trabalhos históricos que exploram o período da construção da Teoria no início do século XX, bem como trabalhos que mesclam abordagens históricas com possibilidades atuais de desenvolvimento da pesquisa em seus fundamentos.O livro compreende 21 capítulos e 28 autores, divididos entre brasileiros e estrangeiros, em proporções aproximadamente iguais.Reúne desde pesquisadores-sênior a estudantes de pós-graduação.Os trabalhos aqui reunidos foram apresentados em versões preliminares, no workshop que dá origem ao livro.As versões preliminares foram submetidas a um processo de arbitragem e seleção, conduzido pelos organizadores do volume, de modo que esses textos representam um esforço coletivo de discussão e elaboração que teve início naquele workshop e que se prolongou por quase um ano e meio.
O recente afastamento radical das explicações tradicionais a respeito de fenômenos subatômicos tem levado cientistas e filósofos a ponderar com mais vagar se a renúncia à própria noção de determinismo e de conhecimento objetivo, tão cara para o cientificismo positivista, tratar-se-ia de mero expediente momentâneo e superável, ou mesmo, no dizer de Erwin Schrödinger, de “simples excentricidades filosóficas desesperadas em momento de grande crise”, ou se, pelo contrário, exigiria, na verdade, a revisão, revolucionária por também ser radical, de todos os pressupostos considerados até então como os mais fundamentais do próprio pensamento, o que inclui: o princípio da causalidade, da localidade, do terceiro excluído, da não-contradição e da identidade. A presente proposta visa acompanhar uma reflexão sobre os princípios quânticos da Incerteza de Heisenberg e da Complementaridade de Bohr, relacionando-os com a própria ontologia heideggeriana na medida em que estes dois últimos princípios se estabelecem, cada um a seu modo, como que perpassados pelo que Heidegger chamará de dubiedade insuperável de todo e qualquer perguntar original pelo Ser e, assim, procurando mostrar que o referido afastamento, muito distinto de mera excentricidade filosófica desesperada, se dá em virtude da conscientização contemporânea cada vez maior de que a incerteza e a probabilidade são aspectos inerentes à physis que como num jogo dúbio de mostrar e esconder incessante, exatamente como o “nunca dado desde sempre” heraclítico, impossibilita que qualquer conhecimento da realidade atômica possa ser considerado propriamente como objetivo, definitivo e isento, acenando na mesma direção da experiência e interpretação grega do Ser como fundamento oculto de nossa existência histórica.
A nova forma de causalidade estatística, Niels Bohr deu-lhe o nome de princípio da complementaridade, em dois modos de compreender a «natureza física». As relações de complementaridade, expressando os limites dos conceitos clássicos, pretendem apresentar nova leitura sobre os fenómenos atómicos, em termos dos conceitos da física clássica. N. Bohr propõe um novo princípio de complementaridade. Assim, serão analisados os fundamentos ontológicos, gnoseológicos e as aplicações do referido princípio da Mecânica Quântica.
Podemos facilmente constatar que o desenvolvimento das principais teorias do conhecimento do período moderno da filosofia ocidental guardou uma estreita relação com o status quo do desenvolvimento da matemática e das ciências de uma maneira geral. Essa característica é sobretudo evidente no projeto kantiano de fornecer as bases filosóficas para explicar a possibilidade da geometria (euclidiana) e da física newtoniana, as quais Kant fundamentou sob princípios os quais considerou condições sine qua non do conhecimento humano. Contudo, a física que se desenvolveu na primeira metade do século XX apresentou situações em que os próprios físicos tiveram que se questionar acerca dos problemas epistemológicos envolvidos na descrição, interpretação, e em última instância, na comunicação dos fenômenos observados, de modo que alguns conceitos caros à epistemologia tradicional se mostraram ora inválidos, ora ineficientes para explicar a possibilidade de conhecimento objetivo diante desse novo conjunto de fenômenos. Portanto, gostaríamos de apresentar de maneira breve de que modo ocorre essa contraposição entre epistemologia tradicional e teoria quântica, bem como o modo como os físicos Niels Bohr e Werner Heisenberg lidaram com a nova situação que se apresentava.
Este artigo tem como objetivo discutir a Dualidade Onda-Partícula e o Princípio da Incerteza como expressões de uma ideia mais geral de natureza interpretativa: o Princípio de Complementaridade, formulado pelo físico dinamarquês Niels Bohr. Trata-se, conforme defenderemos, de uma interpretação antirrealista que é fundada na objetividade da Física. A impossibilidade de utilização simultânea das leis de conservação de energia e momento (asserção de causalidade) e da coordenação espaço-temporal será problematizada, analisando-se uma possível incompatibilidade desta complementaridade com o antirrealismo. Discute-se, ainda, o processo de medição quântica numa perspectiva conceitual e epistemológica, e o significado da constante de Planck, enfatizando a ideia de que, nesta interpretação ortodoxa, o vetor de estado, que contém todas as informações do sistema, tem um significado meramente epistêmico. Assim, no que pese a extraordinária precisão com que a teoria quântica permite predizer e comunicar resultados de uma medida em um contexto experimental bem definido, a teoria não se ocupa de responder o que é o objeto quântico, no sentido ontológico, conferindo-lhe assim seu aspecto antirrealista e, ao mesmo tempo, objetivo.