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Os princípios de complementaridade e de incerteza na obra Copenhague de Michael Frayn: a arte e a teoria quântica

Alessandro Frederico da Silveira, Aurino Ribeiro Filho, Ana Paula Bispo da Silva

Published Jan 1, 2011• 0 citations
Publisher

Abstract

A obra Copenhague, escrita em 1997 pelo escritor Michael Frayn, situa-se em tempo e lugar desconhecidos.São três os personagens principais: Niels Bohr, Werner Heisenberg e Margrethe Norlungue, esposa de Niels Bohr.Os personagens estão mortos e relembram, ora no mesmo ambiente, ora em ambientes diferentes, o que Bohr e Heisenberg conversaram em um encontro real realizado entre os cientistas em 1941, em Copenhague, Dinamarca, na casa de Bohr.A conversa oscila entre dois assuntos principais: os princípios de incerteza e complementaridade e a questão nuclear.(DÖRRIES, 2005;FRAYN, 2000;SHEPHERD-BARR, 2006) Quando o encontro ocorreu, em outubro de 1941, Heisenberg, professor de Física Teórica na Universidade de Leipzig, liderava o programa alemão para investigar a possibilidade de fabricação de uma bomba atômica.Nesse período, a Alemanha nazista já havia ocupado a Polônia, Bélgica, Holanda, Noruega, parte da França e a Dinamarca, onde Bohr se encontrava, isolado em sua casa.Heisenberg estava em Copenhague para participar de um seminário no Instituto Cultural Alemão e foi convidado por Bohr para jantar em sua casa.(DÖRRIES, 2005) Como costumeiramente acontecia nos encontros de Bohr, os dois saíram para uma caminhada para conversar, porém, pouco se sabe sobre o que conversaram.(ABDALLA, 2006; HEISENBERG, 1995; MARTINS

DOI
10.7476/9788578791261.0015

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•Jan 1, 2011•14 citations
A obra Copenhague, escrita em 1997 pelo escritor Michael Frayn, situa-se em tempo e lugar desconhecidos.São três os personagens principais: Niels Bohr, Werner Heisenberg e Margrethe Norlungue, esposa de Niels Bohr.Os personagens estão mortos e relembram, ora no mesmo ambiente, ora em ambientes diferentes, o que Bohr e Heisenberg conversaram em um encontro real realizado entre os cientistas em 1941, em Copenhague, Dinamarca, na casa de Bohr.A conversa oscila entre dois assuntos principais: os princípios de incerteza e complementaridade e a questão nuclear.(DÖRRIES, 2005;FRAYN, 2000;SHEPHERD-BARR, 2006) Quando o encontro ocorreu, em outubro de 1941, Heisenberg, professor de Física Teórica na Universidade de Leipzig, liderava o programa alemão para investigar a possibilidade de fabricação de uma bomba atômica.Nesse período, a Alemanha nazista já havia ocupado a Polônia, Bélgica, Holanda, Noruega, parte da França e a Dinamarca, onde Bohr se encontrava, isolado em sua casa.Heisenberg estava em Copenhague para participar de um seminário no Instituto Cultural Alemão e foi convidado por Bohr para jantar em sua casa.(DÖRRIES, 2005) Como costumeiramente acontecia nos encontros de Bohr, os dois saíram para uma caminhada para conversar, porém, pouco se sabe sobre o que conversaram.(ABDALLA, 2006; HEISENBERG, 1995; MARTINS
O Princípio da Incerteza, proposto pelo físico Werner Heisenberg em 1927, possui centralidade no desenvolvimento Teoria Quântica e desde sua formulação assume uma pluralidade de interpretações, derivações matemáticas e experimentos mentais que buscam explorá-lo em profundidade. Entretanto, os livros didáticos, que possuem papel importante na formação de cientistas e professores de ciência, usualmente optam por privilegiar somente alguns de seus principais aspectos, limitando a apresentação do Princípio da Incerteza nos cursos de Teoria Quântica do ensino superior. Com o objetivo de ampliar as discussões sobre o Princípio da Incerteza para as variáveis posição e momentum e contribuir com o Ensino da Teoria Quântica, ao longo deste texto apresentamos o Princípio da Incerteza em três diferentes níveis (formalismo matemático, fenomenologia e interpretação). Começamos resgatando de forma didática quatro diferentes derivações históricas do Princípio da Incerteza: as derivações de Heisenberg e Weyl para as variáveis posição e momentum, e as derivações de Robertson e Schrödinger para dois observáveis quaisquer A e B. Em seguida, retomamos dois experimentos mentais propostos por Heisenberg: o microscópio de raios-gama e o elétron passando por uma fenda. Por fim, apresentamos quatro principais escolas de interpretação do Princípio da Incerteza.
A peça Copenhagen que, em 2003, a Seiva Trupe levou à cena no Teatro do Campo Alegre (Porto), trata de um assunto que, à primeira vista, pouco interesse despertaria na maioria dos espectadores. Contudo, o reconhecido êxito que a peça obteve deve-se tanto ao excelente desempenho dos três únicos atores como à qualidade do autor (Michael Fraym) que soube transformar um encontro de dois amigos, num dia de Setembro de 1941, numa Copenhaga ocupada pelos nazis, num drama onde se cruzam reminiscências da época gloriosa da fundação da teoria quântica (quase totalmente criada na capital dinamarquesa e que, por isso, é conhecida por interpretação de Copenhaga), com o próprio cenário de guerra, num ambiente de medo e hostilidade, mas conduzindo subtilmente o espectador a uma atitude de ambiguidade quanto à finalidade do encontro entre dois dos maiores físicos do séc. XX – o dinamarquês e judeu Niels Bohr (1885-1962) e o alemão Werner Heisenberg (1901-1976) – e onde a terceira personagem (Margaret, mulher de Bohr) não é mera espetadora, antes marcando a presença do senso comum (e, com ele, o espetador) no debate histórico.
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O recente afastamento radical das explicações tradicionais a respeito de fenômenos subatômicos tem levado cientistas e filósofos a ponderar com mais vagar se a renúncia à própria noção de determinismo e de conhecimento objetivo, tão cara para o cientificismo positivista, tratar-se-ia de mero expediente momentâneo e superável, ou mesmo, no dizer de Erwin Schrödinger, de “simples excentricidades filosóficas desesperadas em momento de grande crise”, ou se, pelo contrário, exigiria, na verdade, a revisão, revolucionária por também ser radical, de todos os pressupostos considerados até então como os mais fundamentais do próprio pensamento, o que inclui: o princípio da causalidade, da localidade, do terceiro excluído, da não-contradição e da identidade. A presente proposta visa acompanhar uma reflexão sobre os princípios quânticos da Incerteza de Heisenberg e da Complementaridade de Bohr, relacionando-os com a própria ontologia heideggeriana na medida em que estes dois últimos princípios se estabelecem, cada um a seu modo, como que perpassados pelo que Heidegger chamará de dubiedade insuperável de todo e qualquer perguntar original pelo Ser e, assim, procurando mostrar que o referido afastamento, muito distinto de mera excentricidade filosófica desesperada, se dá em virtude da conscientização contemporânea cada vez maior de que a incerteza e a probabilidade são aspectos inerentes à physis que como num jogo dúbio de mostrar e esconder incessante, exatamente como o “nunca dado desde sempre” heraclítico, impossibilita que qualquer conhecimento da realidade atômica possa ser considerado propriamente como objetivo, definitivo e isento, acenando na mesma direção da experiência e interpretação grega do Ser como fundamento oculto de nossa existência histórica.
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